Por quarenta dias, eu chorarei e as lágrimas saciarão minha sede nesse deserto; por quarenta dias, meus olhos derramarão aquilo que minha boca não tem coragem de pronunciar; por quarenta dias, repetirei os passos de tua Via, as lágrimas despencam em cada uma das quedas; por quarenta dias, meu coração impuro te será exposto enquanto imploro por um novo, que seja limpo e me firme o Espírito…

Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo, não sou mais contada no número dos mortos…

E cá estou: na solidão silenciosa, olhos fechados e apertados, as olheiras fundas e corpo cansado, me concentrando pra ouvir a tua voz, no meio dessa tempestade de areia que ameaça me cortar a pele.

Mas eu permaneço aqui.

Do teu lado

Você do meu

Pra eu ver em você, como foi e como é, que o amor se derrama na terra, pois, ainda que árida e infértil, deseja inundá-la, com a mesma violência que um tornado sequestra casas de madeira, não existe resistência, apenas rendição. Leva tudo.

Só fica o som: onde encontrarei descanso para minha alma? Onde repousarei a cabeça?

E esse é meu som, a saudade traduzida nos soluços do meu choro que não cessa de chover por nós, mas a água que devolve Vida é só a tua e eu peço pra chover em mim, faz vir a chuva no meu deserto, que espera a tua aurora chegar.

Porque eu permaneço aqui.

Do teu lado

Você do meu

Depois da inundação e a tempestade amansadas, levantar-se-á, lento e glorioso, teu sol sobre mim, agitando o recôndito da minha humanidade, que se reveste do mesmo púrpura que teus sacerdotes, declarando parte, eu já estou aqui, sou culpa nas tuas dores e você as cobriu, pra eu não desistir.

E eu me visto de novo, me visto de roxo, pra nunca mais me deixar partir.

“Porque derramarei água sobre o solo sequioso, eu a farei correr sobre a terra árida” (Isaías 44; 3)