No medidor de sofrimento ás regras são simples: grite, chore, faça drama – se jogue no chão, troca a tua doença rara pela mais convencional e torça para que o medidor te acuse como doente. Caso isso não aconteça: você está fingindo, você está exagerando, você precisa de mais ocupação. Não qualquer ocupação: heróica, admirável ou pelo menos tons pastéis.
Pastelão, fácil de engolir.
Curtição, fácil de rir.
Imersão, fácil de entender.
Há quem ache que a dor do outro é sempre maior e não valoriza as próprias dores e quissá suas próprias cicatrizes. Mesmo lembrando do quanto foi custoso o processo do ferimento à cicatrização, sendo o único e maior espectador dessa cena, por vezes assistida de dentro, quando vê o mínimo sintoma de doença alheio: esquece, cospe na própria cicatriz e se envergonha da própria história. Há quem pense que a dor do outro é sempre menor, é sempre mais doce, é sempre mais leve. Acha que o mundo gira em torno da própria
experiência e jura com poucas evidências que é mais sofredor e que depois de Cristo é o maior conhecedor da Via Dolorosa. É uma competição com sonho de podium: o mais sofredor ganha, o menos sofredor finge que não sofre. De vergonha e de medo, de além de não poder nem participar da competição, no fim das contas ele nem quer. Ele só quer ter direito de sofrer e poder chorar a própria dor.

Nossos braços estão cheios de medidores, antes de pressão, agora temos de todo tipo de sentimento: do sofrimento ao cansaço,
do amor à paixão,
da devoção à religião,
do tempo e da saudade.
O problema é que depois de medido e descartado. A dor de cabeça não passa, mesmo ela sendo menos valorizada que o câncer. Os calos no dedinho não deixam de incomodar quando entram no sapato, mesmo ele não sendo um pé de bailarina todo machucado. Krishna não deixa de usar uma maquiagem que coça o rosto, mesmo que ele não fique tanto tempo sentado como Buda. No fim das contas o Único Deus que teve o nome de Jesus, não achou seu sofrimento tão superior a ponto de desvalorizar o meu.
A dor. Seja de quem for.
Ele disse ”vinde a mim todos vocês que estão cansados e eu vos aliviarei”. O Mais Cansado, não quis medir o meu cansaço: ele só entendeu que as minhas costas não são tão largas quanto a dEle e de que o sofrimento é proporcional à capacidade de sofrer, sendo o fardo medido à quantas toneladas eu consigo carregar.
Quando Ele fala, já não existe mais ninguém pra medir nem a dor e nem a paixão.

Se é pra ser como ele, a gente deixa de sonhar com o podium
e começa a querer subir na cruz.