RCC

A Discussão sobre “Corrente de Graça” e “Movimento”

A Discussão sobre “Corrente de Graça” e “Movimento”

Extraído do Livro A Experiência de Pentecostes e a Santa Missa, de Fernando Nascimento

rcc_um_constante_desafio_1O livro de Reinaldo Beserra dos Reis intitulado Renovação Carismática Católica Um Constante Desafio é magistral a este respeito (na minha opinião, é de leitura obrigatória para os “carismáticos”).

A Igreja Católica é constituída das dimensões institucional e carismática. Isto não significa que algumas coisas na Igreja sejam “institucionais” e outras “carismáticas”; pelo contrário: qualquer realidade eclesial é essencialmente institucional e carismática.

Desde o princípio, o mesmo Cardeal que defendera o Movimento Carismático como corrente de graça também se preocupava com dar forma aos Serviços Internacionais da RCC, a fim de dar suporte formativo e pastoral aos diversos grupos de oração existentes no Mundo. Organismos continentais, nacionais, estaduais, diocesanos, etc. foram surgindo em decorrência da necessária unidade pastoral e doutrinária. Sendo assim, a RCC foi tomando os moldes de um Movimento Eclesial.

Ela é, portanto, um Movimento Eclesial. Está ligada ao Conselho Pontifício para os Leigos. Isto dá à Renovação Carismática a possibilidade de ter unidade no pensamento e no agir. Por esta organização, ela foi abençoada de inúmeras formas e acompanhada com solicitude pelos Bispos da Igreja.

Eu acredito, contudo, que os líderes da Renovação unidos num Movimento Eclesial precisam entender que, em primeiríssimo lugar, há algumas peculiaridades que diferenciam a RCC da noção básica de Movimento Eclesial. Pontuo duas:

  1. Um Fundador: A Pessoa do Fundador não é periférica, mas de suma importância na vida de um Movimento Eclesial. Ele é o transmissor do carisma. A Renovação Carismática, por outro lado, não tem um fundador, nem uma data de fundação.

  2. Princípios, Normas e Regras do Movimento: Os Movimentos Eclesiais possuem normas, princípios e regras que regem desde a incorporação ao Movimento (apresentando pré-requisitos para que alguém possa ser aceito no Movimento) à vida diária de seus membros, com um caminho espiritual a ser percorrido, normas de vida a serem observadas, orações específicas a serem feitas, etc. A RCC, por outro lado, não faz seleção de pessoas, não restringe, não impõe normas de incorporação. A RCC não possui princípios e normas próprias. Todo aquele que é Batizado no Espírito Santo, manifesta carismas e está unido ao Bispo Diocesano (vive na comunidade) … É legitimamente carismático.

     

    Uma breve comentário em relação com o segundo ponto citado acima: Tentando incutir no coração das pessoas o benefício da participação nos grupos de oração como lugar privilegiado para a vivência da oração carismática comunitária, houve, aqui no Brasil, todo um trabalho levado a cabo pelo Conselho Nacional que tinha por “rhema” a frase “Grupo de Oração, Eu participo”. Infelizmente, os direcionamentos desta campanha foram mal interpretados por muitos que, até hoje, afirmam categoricamente que aqueles que não participam de um Grupo de Oração ligado ao Movimento da RCC não são carismáticos. Portanto, Novas Comunidades não são Renovação Carismática, por exemplo. Isto vai contra os estatutos do ICCRS aprovados pela Santa Sé e é, portanto, improcedente.

    Estas características, contudo, são essenciais para identificar uma realidade eclesial como Movimento? O Espírito Santo tem dito a Igreja que “não”. Embora sem um fundador e um livro de regras, a Renovação se constitui um grupo de homens e mulheres – ministros ordenados e leigos – portadores de uma graça que é, para a Igreja, rosto e memorial de sua dimensão carismática. O carisma específico deste Movimento é a vivência pentecostal com suas manifestações e consequências atestadas no relato bíblico. De fato, nenhum “carisma específico e fundante” de um Movimento é algo totalmente novo; apresenta-se sempre como um despertar ou avivar de uma dimensão da vida cristã que o Espírito Santo deseja ressaltar e trazer à tona num momento específico da Igreja. O movimento franciscano, por exemplo, tem por carisma específico a pobreza evangélica; ora, só os franciscanos devem ser pobres? De modo algum! O movimento franciscano – na sua vivência radical, amorosa e até “louca” (característica própria dos apaixonados) – é rosto e memorial perene deste conselho evangélico. Toda a Igreja deve ser pobre! Outro exemplo: O Movimento dos Focolares tem por carisma fundacional a unidade e – na sua vivência radical, amorosa – é rosto e memorial deste mandato do Senhor: “Que todos sejam um para que o mundo creia” (cf. Jo 17,21). É neste sentido que o Movimento Carismático é legitimamente um “Movimento” enquanto rosto e memorial da vivência pentecostal do cristão – que se orienta a avivar a dimensão carismática da Igreja – na sua vivência radical, amorosa e “louca”.

    Este é um dos desafios teológicos que o Movimento Carismático apresenta à Igreja: A Renovação assumiu a forma de um Movimento Eclesial e assim foi acolhida pela Igreja sem ter um fundador e manuais com princípios e normas, pois, apesar disto, traz em si um carisma específico de renovação pentecostal para toda a Igreja.

    Somos um Movimento. Que isto seja sim um motivo de alegria. Contudo, o fato de não levarmos em conta as especificidades deste movimento e a ênfase que se deu à institucionalização da RCC enquanto Movimento Eclesial gerou também um ônus que desejo fazer objeto da nossa reflexão.

    A Renovação Carismática é um Movimento? Bem, o “Caminho Neocatecumenal” também o é, os “Focolares” igualmente; o “Cursilho”, a “Comunhão e Libertação”, o “Opus Dei”, o “Regnum Christi”, etc., são todos Movimentos Eclesiais. Como Movimentos, possuem suas sedes com toda uma vida própria, repleta de atividades e independente, sob muitos aspectos, da Comunidade Paroquial. Em linhas gerais, o impacto que estes Movimentos causam na vida das paróquias é gerado pela participação de seus membros no dia a dia da paróquia (não se trata, portanto, de uma ação específica do Movimento para a paróquia, mas da participação dos membros do Movimento – com uma boa formação e uma vida espiritual geralmente profunda – no dia a dia da paróquia … Algo que se dá meio que “por osmose”).

    Na busca da necessária institucionalização, a Renovação Carismática Católica criou toda uma dinâmica formativa e uma atividade missionária que são próprias de um Movimento e, muitas delas, inegavelmente são independentes da paróquia. Em muitíssimas realidades, o Grupo de Oração é um horário semanal no qual os “carismáticos” usam as dependências da paróquia para as atividades próprias do Movimento sem qualquer relação com o programa pastoral da Diocese e da própria paróquia. Quando muito, participam das reuniões de CPP, “tocam” em alguma das missas e organizam alguns eventos. Ao assumirem funções como catequistas, ministros da Eucaristia e membros das diversas pastorais, eles o fazem desde que não façam qualquer coisa que remeta à experiência carismática, de modo que, se por um lado ganhamos católicos com uma maior “sensibilidade espiritual” para os diversos serviços da paróquia (o que é uma benção), por outro lado a experiência carismática fica relegada a uma atuação paralela da vida mesma da paróquia.

    É necessário repensar o conceito de Paróquia e de jurisdição eclesiástica? Com certeza (e esta discussão está muito em voga nas reuniões dos Bispos aqui no Brasil). A Paróquia precisa se abrir para que os Movimentos Eclesiais consigam se inserir devidamente, desembocando no conceito de Paróquia como Comunidade de Comunidades. Aliás, acho incrível como os Movimentos Eclesiais são considerados como “carentes de eclesialidade” por muitos padres e líderes de pastorais, que só passam a considerar alguém como “inserido na vida da paróquia” se a pessoa fizer, ao mesmo tempo, parte de algum serviço ou pastoral. Participar de um Grupo de Oração e trabalhar ativamente nele é “insuficiente” para estes padres e líderes.

    Por outro lado, quando o assunto é Renovação Carismática Católica… Não consigo deixar de lamentar o fato de nós termos abandonado o desejo de “revitalizar a evangelização, as prédicas, o culto sacramental, o Rito de Iniciação Cristã de adultos, a pastoral da juventude, a preparação para o crisma e os modos de vida comunitária no contexto da paróquia local” e o sonho de uma paróquia como uma comunidade prestando culto em vibrante liturgia. Este foi o ônus da ênfase da Renovação Carismática Católica como um Movimento Eclesial, pois infelizmente o Batismo no Espírito Santo e as Manifestações Carismáticas passaram a ser “coisa de carismáticos” e abandonamos, como Movimento, os assuntos do dia a dia de uma Paróquia Católica como não sendo “a nossa identidade”, “a nossa missão”, a final, “a economia sacramental e a liturgia são comuns a toda a Igreja”, “não é da responsabilidade de um movimento em específico”.

    A Renovação precisa deixar de ser um Movimento? De modo algum! Aliás, isto é impossível e, se fosse possível, seria um grave erro. Se colocarmos na balança, o bônus de sermos um Movimento é muito maior que o ônus sob vários aspectos (e é por isto que o Espírito Santo nos guiou por este caminho). Sou contra este pensamento romântico de que não podemos ser um Movimento porque somos uma espiritualidade, uma “corrente de graças” como algo “solto no ar”, sem coordenações, estruturas e organismos. Isto não existe na Igreja de Cristo, que sempre foi e sempre será Instituição e Carisma! Por outro lado, eu acredito que a visão dos líderes carismáticos precisa ser reformulada quanto a consciência que temos de nós mesmos, uma vez que, embora sejamos um Movimento Eclesial, somos muito diferentes dos demais movimentos (o que não nos torna melhores ou piores).

    Estamos falando, portanto, de um Movimento a sui generis, com um caráter universal muito próprio, orientado a avivar toda e qualquer espiritualidade, serviço, movimento, instituição, congregação, associação ou “ajuntamento de pessoas” que o desejar. Ao mesmo tempo, este próprio “sopro espiritual” se constitui num organismo vivo e pulsante, cuja única missão é manter o avivamento carismático em constante ação, dia após dia, para toda e qualquer pessoa e realidade eclesial que dele quiser beber.

    Então, como gerar uma organização sem reduzir a natureza da Renovação a algo que ela não é? Isto, sem dúvida alguma, constitui-se num dos maiores desafios para a existência da Renovação (e uma das coisas mais apaixonantes nela também!).

    Algumas ideias me veem a mente sobre esta questão:

    • Para que o Batismo no Espírito Santo, as Manifestações Carismáticas e a vida comunitária no Espírito permaneçam vibrantes e atuantes na vida da Igreja, renovando toda e qualquer pessoa ou realidade eclesial que esteja aberta para tal, o Espírito Santo suscita homens e mulheres que, unidos, são como que um coração bombeando o avivamento para todo o corpo. Os líderes carismáticos unidos são um coração que bombeia a experiência carismática; eles são rosto memorial (no sentido bíblico de “tornar atual”, “reapresentar”) de Pentecostes, que é perene na vida da Igreja.
    • Estes líderes levantados por Deus estão unidos internacionalmente, bem como nos níveis nacionais, estaduais, diocesanos e paroquiais, e constituem, assim, o Movimento da Renovação Carismática Católico.
    • Os Grupos de Oração são lugares calorosos de oração ao serviço de todos os católicos (e não a reunião dos membros do movimento) independente do serviço que estes prestam à Igreja ou da espiritualidade com a qual se identificam.
    • O verdadeiro responsável pela Renovação Carismática é o coordenador diocesano, pois é ele quem tem o respaldo e atua sob o cajado do Bispo da Igreja Particular, que é o verdadeiro Pastor, em nome de Jesus Cristo, ao qual todos devemos estar ligados (e, por meio dele, ligados à Igreja Universal sob o cajado do Papa).
    • Todos os níveis acima da coordenação diocesana da RCC (estaduais, nacionais e internacionais) são instâncias de serviço, apoio, promoção, formação, orientação, discernimento, etc., menos de governo. Este é, por exemplo, o papel dado pela Santa Sé ao ICCRS, em seus estatutos! É uma instância de comunhão e não de governo. Um coordenador estadual ou nacional (para citar um exemplo) jamais poderia interferir numa instância diocesana sem o consentimento do Bispo Local, pois não gozam de autoridade de governo para tal.
    • O Coordenador Diocesano é aquele que, sob a autoridade do Bispo Diocesano, auxilia os Párocos nas Comunidades a fim de que a graça do Batismo no Espírito Santo permeie todas as realidades e serviços da Paróquia, zelando para que o Grupo de Oração seja coordenado e cuidado por pessoas bem formadas e identificadas com a Renovação: líderes levantados por Deus para serem um coração da experiência carismática na comunidade, como rosto e memorial de pentecostes.
    • O primeiro serviço da Renovação é … A Renovação da Igreja, constituída em Igrejas particulares e Comunidades Paroquiais (e é dentro dessas realidades que todas as demais realidades eclesiais coexistem). A Renovação pode e deve pensar na missão ad extra e ad gentes; o que não pode acontecer é prescindir da primeira vocação de ser corrente de graça nas comunidades paroquiais.

     

    A Igreja é Apostólica e a autoridade do Bispo deve ser salvaguardada. O coordenador diocesano é o verdadeiro responsável pela Renovação, e todas as demais instâncias só têm razão de ser se priorizarem a assistência total e ilimitada a ele, porque ele é o único submetido diretamente a um Bispo no exercício de sua coordenação no Movimento. Quem libera ou proíbe algo ou alguém? O Bispo Diocesano e o Pároco. Quem é responsável por tudo o que acontece na vida da Igreja Particular? O Bispo Diocesano e, nas diversas comunidades, os respectivos párocos. A quem cabe o discernimento dos espíritos, em última instância? Ao Bispo Diocesano e ao Pároco. Tudo o que acontece na vida da Renovação dentro da Igreja particular recai sobre o “colo” de quem? Do Bispo Diocesano e dos Párocos! Mas, a quem eles procuram nestes casos? Ao Coordenador Diocesano!

    Portanto, a Renovação Carismática Católica precisa entender-se como corrente de graça para que, por sua vez, o Movimento preste o primeiro serviço que a Igreja espera dele: Paróquias Renovadas, celebrando em vibrante liturgia.

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